domingo, 25 de setembro de 2011

À mim mesmo?


Existe algo que me inquieta
na tênue linha do que é real
e dos fantasmas que me assombram.
Algo que não posso descrever para ninguém,
além de mim mesmo ou meramente gritar no silêncio,
destas páginas vazias, onde releio-me estranhamente.

Nestes descaminhos é que refaço-me e recrio-me,
mesmo nas descrenças que me assolam,
não crer em nada e ainda assim seguir...
Seria esse o amor incondicional? Aquele de quê nada se espera?
Desviante de mim, no desdenho egoísta das máscaras,
prefiro o eu desviante, do desconsolo, do incômodo!

Na normalidade brutal e imperceptível
tudo se torna incolor, tediosamente semelhante
organizado, padrões previsíveis do conforto burguês.
Talvez por isso minha anormalidade chame atenção?
No diferente de mim que tanto me desgasta,
criando para os outros: "eus" de mim que eu mesmo desconheço.

(...)

Na tênue realidade...
Do mirar que nada vê,desse real que se revela,
no olhar que limita em tons multifacetados e caleidoscópicos.
E talvez jamais veja algo em sua totalidade,
muito menos esse "ser" que eu mesmo não sei quem sou,
no mistério esquecido de si próprio sou o único viajante...


Nuwanda? [Não existem intervalos entre o que "desejo" ser e o que sou...]

sábado, 24 de setembro de 2011

Metade ( Osvaldo Montenegro)




Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

Oswaldo Montenegro

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vitoriana






Sociedade burguesa!
Com teus valores hipócritas!
Teus bens de consumo, desejos tão vis...
Tão rica! Riquíssima... Tão pobre! Mendiga...

Sociedade burguesa!
Olhai para o alto! Contemples a bela gaivota,
Nesse desejo de ser feliz, em meio à tristeza...
Pois não podereis jamais voar como o belo pássaro!

Sociedade pequena!
Fugindo da dor como fogem da responsabilidade
Criando jogos e vícios! Viva a segunda vida!
Nas ilusões que criam para suportar a cruel verdade:
Serem sozinhos entre amizades vazias, nos monitores silenciosos..

Sociedade falida!
Dêem um copo com a mais fina bebida!
Dêem um rosário de ouro maciço!
Dêem as palavras do deus inventado!
Que tudo acalenta o padecer de vidas vazias...

Sociedade alternativa!
Somos os que sofrem! Sofrimento é vida!
Neste pensar aflito e inquieto!
Somos os poucos que olhamos para baixo!
Neste lugar privilegiado somos os fortes! Guerreiros!

[Somos pequenos porque nas altas montanhas estamos,
aos olhos daqueles que não podem nos alcançar...


Nuwanda... [ Discípulo daquele que filosofou com o martelo...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Culpa






Já foram tantas dores, tantas mortes!
Chagas abertas em mim em desordem,
Nessas horas sou o carrasco! Sou refém!
Cicatrizes tão profundas! Minha sorte?

Tudo isso em meu peito indiferente,
Pouco importa! Desdenhando destes fados!
No caminho dos desgraçados!
No calvário que me consome incessantemente...

Todas os punhais posso suportar!
Menos aqueles que te ferem...
Na ânsia masoquista de te amar!

Vendo-te por minhas mãos, ferida...
Rogo preces para os deuses que não creio!
Afastem a culpa disseminada dos meus atos suicidas...








Nuwanda...[ Ferir-te é suícidio...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Ausência






Eu deixarei que morra em mim o


desejo de amar os teus olhos que são doces


Porque nada te poderei dar senão a mágoa


de me veres eternamente exausto.


No entanto a tua presença é


qualquer coisa como a luz e a vida


E eu sinto que em meu gesto existe o


teu gesto e em minha voz a tua voz.


Não te quero ter porque em


meu ser tudo estaria terminado,


Quero só que surjas em mim


como a fé nos desesperados


Para que eu possa levar uma gota de


orvalho nesta terra amaldiçoada


Que ficou sobre a minha


carne como nódoa do passado.


Eu deixarei... tu irás e encostarás


a tua face em outra face.


Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu


desabrocharás para a madrugada.


Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,


porque eu fui o grande íntimo da noite,


Porque eu encostei minha face na face da noite


e ouvi a tua fala amorosa.


Porque meus dedos enlaçaram os dedos da


névoa suspensos no espaço.


E eu trouxe até mim a misteriosa essência do


teu abandono desordenado.


Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.


Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.


E todas as lamentações do mar, do vento, do céu,


das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente,


a tua voz ausente, a tua voz serenizada.



Vinícius de Moraes

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Doce melodia




Cadências de sons entrecortados, rápidos!
Nessas horas onde pensar é insuportável
Quero os acordes mais loucos!
Nas gargalhadas do meu coração transpassado...


(Frenéticos! Incríveis! Perversos...)

Deixo a lei, as regras para os simples
Quero a transgressao do inteligível!
Normalis siga todas as regras!
Sou o anormal! Repetindo o som desconsertado!

(Frenéticos! Incríveis! Inaudíveis...)

Balbúrdia dos berros desesperados!
Melodia dos que podem ler-me!
E assim sou livre, nesse mundo de surdos!

(Frenéticos! Incríveis! Telúricos...)

Desse "Deus" nada quero!
Quero transgredir em pensamentos insanos!
Ambivalente! Tudo e nada! Possibilidades!

(Frenético! Insuportável! Extraviado...)

Nuwanda! Transgredir! Transgredir! Caos!

domingo, 4 de setembro de 2011

Penélope (Πηνελόπη)?




Na luta desenfreada de Ulisses em sua jornada
Ítaca ainda estará longe de ser alcançada
Mas a força do herói esta no seu amor contido
De sua doce amada na sua espera do tecer refletido...

Dez anos de luta, de sofrer e dor
Ulisses chega em seu objetivo: Ítaca e seu amor!
Filho e esposa em seu peito cativos
Doce Penélope fiel no seu querer possessivo...

Empolgantes os mitos gregos de heróis e amores
Dão esperanças para vidas envoltas em tantas dores
No desejo de se viver de verdade uma intensa vida!

Mas não existem Penélopes para curar as feridas!
Nem desejos que suportem o tempo sem agonias!
Nos fulgores dos amores diluidos de mentes vazias...

Nuwanda...

Sublime



Tudo é tão pequeno, ínfimo e irritante...[Repetitivo,
Por que o respirar para mim é tão difícil?
Sempre a tentar enganar-me com aquilo,
Que já sei que beira na superfície da mediocridade?


Interrogações na solidão dos sublimes...


No mundo dos ignorantes imediatistas!
Onde tudo é pequeno e fluído, finito...
Onde nada pode ser mais que sombras

Neste lugar:

Os sublimes são os tristes de semblante pesado...
Pois não há onde voar nesse hospício
Vão! São os sonhos! Amargos os desejos!


Por isso somos sozinhos!
Na solidão dos que podem mais!
Rindo das paredes de vento que essa massa ergue...
Somos o vento! Gelado! Destruidor! Divino...

E mesmo assim...

Somos os únicos que valem a pena
Os únicos que deixam marcas
Neste lugar onde tudo é igual é previsível.



Nuwanda!