domingo, 30 de maio de 2010

Daí-me algumas palavras


Dai-me algumas palavras,
- porém, somente algumas! -
que às vezes apetece,
pelos jardins de areia,
colher flores de espuma.

Deixai, deixai,secreto,
o silêncio que dorme
às portas da minha alma,
guardando os labirintos
e as esfinges enormes.

(O silêncio caido
com seus firmes oceanos
- onde não há mais nada
dos litorais do mundo
nem do périplo humano!)

Cecilia Meireles

Quando



Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, própriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. EU
Serei tal qual pareço em mim? SEREI
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.


(ÁLVARO DE CAMPOS)


sábado, 29 de maio de 2010

Pedaços


Viver é arrancar pedaços!
Partes de outros pra si em puro egoísmo,
Se amalgamar com eles em delírio profundo!
E deixar também pedaços de si no caminho...



Ando sem arrancar pedaços de ninguém...
Despedaçado por tantos outros que também,
Por medo da própria presença,
Roubam-me partes que não são minhas... [Ladrões?


Será esse o sentido do "oco" que a tanto sinto? [ O que me sobra?


Dando esperança a tanta gente!
Como pode ser isso possível?
Se não tenho nenhuma para mim mesmo?


Os pedaços que colo em mim
São pedaços que não aderem, enfim
Neste ser marcado para a solidão...



Nuwanda!!!!!!! [Quando já nos tivermos ido, o que mais vai importar?

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Equações


Sempre questionei-me sobre muitas coisas,
Sobretudo pelo vazio que constantemente
Crio em mim...
E chega a ser lúdico por demasia
A rasteira que levo dia a dia
De meras palavras que noutros ouvidos
Soam sem importância alguma...
Percebo enfim que as raízes
Que vivo a arrogar que já não existem
Vivem em mim silenciosamente
E como numa batalha quântica da física
Me desconstruo novamente...
E escuto as novas raízes que renascem em mim...
Aqui na balburdia que quero o meu existir!
Vazio! Vazio! Sim o mais repleto vazio!
Concordo veemente...
Mas! Paradoxalmente nas contradições que crio,
Como também na física a ausência não é apenas ausência...
Assim também o meu vazio! Neste sentir é repleto!
Explosões em mim dentro deste vácuo preenchido...


(...)


Das mais enlouquecidas equações...



Nuwanda...

domingo, 9 de maio de 2010

Vaidade (florbela)


Sonho que sou a poetiza eleita,
Aquela que diz e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!



Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmos aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!



Sonho que sou alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!


E quando mais no céu eu vou sonhando,
E qunado mais no céu ando voando,
Acordo do meu sonho...



E não sou nada!...



Florbela Espanca




terça-feira, 4 de maio de 2010

Lobo


Que grito poderia ser dado nesta hora?!!!!!!!
Que sensação estremece em mim?
Que força transborda deste que escreve agora?
Neste momento, um oceano de tempo!
Posso ser tudo!
Posso ir além do que sequer imaginei...

Já não é mais o medo que guiam estas tolas palavras
Nem angústia! Nem auto flagelo! É força!
E que me corta o respirar de tão intenso...
Não há versos que exprimam o que neste paradoxo,
É incontido no mais abissal eu que não conhecia...
Talvez amanhã já não esteja em mim...Latente?

Hoje! Posso tudo! Dentro de meu egoísmo mais perverso!
Hoje sou o caçador que espreita nas sombras
Meu olhar é firme! E decidido meus passos!
Não existe nada aqui que vacile neste gigante que me vejo!
E percebendo o perigo que este caminho leva...
Apenas gracejo com risos e desdenho nos lábios...

E não me é possível entender o medo que me movia!
Dentro das minhas falhas constantes!
Pois agora! A vida corre em meu sangue ardente!
E este que eu não conhecia emerge em mim!
Como o lobo que devora na floresta!
Onde nenhum outro pode atrever-se mirar em seus olhos...

Nuwanda?