terça-feira, 27 de julho de 2010

Existe um poema melhor?


Os ombros suportam o mundo



Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 24 de julho de 2010

Como você...


Também queria...
Navegar por entre mares
Ter o vento que me leva além dos meus desejos!
Trazendo o ar que eu tanto preciso
Também queria...
Que minhas loucuras fossem coloridas
Ser poeta sem versos nem rimas, como queria...
Queria a doçura e o sabor indescritíveis a cada dia
E no ar pegar as pétalas que flutuam no infinito...
E que talvez um dia nunca consiga...


(...)


Nuwanda...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Querer




Quero navegar por entre os mares,
Quero vento nas velas de meus desejos.
Quero ventania na minha vida,
Quero cores em meus pensamentos.
Quero ser poeta, mas não quero versos.
Quero palavras doces, mas não quero rimas.
Eu quero sabor para meus dias e sentir a brisa do dia.
Quero ser pétala no ar, como nunca fui um dia...

domingo, 18 de julho de 2010

Glacial


Passos indecisos na escuridão, segue...
Fremente no frio que ele próprio produz,
Não verte mais o fogo de seu coração
Na morbidez azul da morte...Frio...


Ainda segue...
A lareira crepitante apagou
Resta o gelo voraz em suas veias,
Deixando raízes para trás...


Não há luz... Segue?
O movimento de seus passos trás a dor,
Mas não há como parar... Não...
Do teu conforto inerte... Podes ver?


Segue!
Fazendo do teu frio indiferente,
A tua força para ir além...
Dos que um dia ousaram viver,
Para adiante! Da mediocridade...


Nuwanda...