segunda-feira, 26 de abril de 2010

Demônio


Não há ninguém perto agora...
Apenas meus próprios passos posso ouvir
Cadenciando a solidão que sinto nessa hora,
Observando o caminho que há de vir...


É nesta escrita que me velo...
Nesse enigmático sofrimento que me devora
E...neste mistério sem fim me revelo...
Quem poderá ver-me em verdades desoladoras?



É na aridez que me movo...
Passos rápidos em direção à escuridão
Nesse caos de mim que promovo...



E nesta polifonia de vozes que crio!
Ninguém pode ver ou ouvir!
Os demônios que trago dentro de mim...



Nuwanda...

sábado, 24 de abril de 2010

Poeta



POETA, às horas mortas que o cálice azulado
— Da etérea flor — a noite — debruça-se p'ra o mar,
E a pálida sonâmbula, cumprindo o eterno fado,
As gazas transparentes espalha do luar,


Eu vi-te ao clarão, trêmulo dos astros lá n'altura
Pela janela aberta às virações azuis,
— A amante sobre o peito sedento de ternura,
A mente no infinito sedenta só de luz.


Perto do candelabro teu Lamartine terno
À tua espera abria as folhas de cetim;
Mas tu lias no livro, onde escrevera o Eterno
Letras — que são estrelas — no céu — folha sem fim


Cismavas... de astro em astro teu pensamento errava
Rasgando o reposteiro da seda azul dos céus:
E teu ouvido atento... em êxtase escutava
Nas virações da noite o respirar de Deus.


O oceano de tua alma, do crânio transbordando,
Enchia a natureza de sentimento e amor,
As noites eram ninhos de amantes s'ocultando,
O monte — um braço erguido em busca do Senhor.


Nas selvas, nas neblinas o olhar visionário
Via s'erguer fantasmas aqui... ali... além,
P'ra ti era o cipreste — o dedo mortuário
Com que o sepulcro aponta no espaço ao longe... alguém


No cedro pensativo, que a sós no descampado
Geme e goteja orvalhos ao sopro do tufão,
Vias um triste velho — sozinho, desprezado
Molhando a barba em prantos co'a fronte para o chão.


Aqui — ondina louca — vogavas sobre os mares —
Ali — silfo ligeiro — na murta ias dormir,
Anjo — de algum cometa, que vaga pelos ares,
Na cabeleira fúlgida brincavas a sorrir.


Sublime panteísta, que amor em ti resumes,
Sentes a alma de Deus na criação brilhar!
Perfume — tu subias, de um anjo entre os perfumes,
Ave do céu — nas nuvens teu ninho ias buscar.


Canta, poeta, os hinos, com que o silêncio acordas,
A natureza — é uma harpa presa nas mãos de Deus.
O mundo passa... e mira o brilho dessas cordas...
E o hino?... O hino apenas chega aos ouvidos teus.


Todo o universo é um templo — o céu a cúpula imensa,
Os astros — lampas de ouro no espaço a cintilar,
A ventania — é o órgão que enche a nave extensa,
Tu és o sacerdote da terra — imenso altar.

Castro Alves

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Lamento...


Por quê? Essas aflições não passam?
Por que não se dissolvem dentro da fornalha que sou?
Sinto que serei consumido por mim mesmo...
Eternas prisões do cuidado com o outro!
Em descompasso das coisas que quero...
E o que eu quero? O que tanto busco?
Que mergulho foi este? Nessas aguas abissais?
Seria a interrogação uma fuga?
Do não enfrentamento do meu eu?
Deixando legados de minhas misérias a quem, realmente amo...
Neste amor egoísta que tanto perpassa-me...
Na verdade estou cego!
Desvelando fantasmas e quimeras de mim...
Escrevendo meus silêncios de cada dia...
Ouve?
Já não me é estranha esta minha indiferença,
E já percebo que afundei demais...
Descontínuos desta mágoa que não se explica...



Nuwanda...



quarta-feira, 7 de abril de 2010

Utopia


Como é doce o amor!
Amar! A vida cheia de novas cores!
E gritar aos quatro ventos com ardor!
E caminhar à vida em meio a flores...


Mas! Quem pode dizer que este sentir durou?
Ou quem pode dizer que amou,
Na mesma medida em que foi amado?
Quem pode arrogar-se que sabe amar?


Irreal? Intangível? Inefável?
Talvez o amor seja para nós
Como o andar infinito do nunca achar...
Andar,andar, andar... Não é assim viver?


Seja o amor um breve momento!
Seja o amor um beijo interminável!
Ou talvez só teias de ilusões!
Mesmo sem saber amar!
Afogar-me-ei nesta ignorância...


Nuwanda.